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Eixo e a Roda-Revista de Literatura Brasileira

Publisher:
—
ISSN:
0102-4809
Category:
LITERATURE, ROMANCE
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Autoria feminina negra na literatura juvenil: a memória coletiva na formação de identidades

2024-03-08

Pedro Afonso Barth

Com a finalidade de traçar um panorama sobre a produção literária de mulheres negras no âmbito da literatura juvenil brasileira, o presente estudo traz uma comparação entre A cor da ternura (2018), obra de Geni Guimarães publicada originalmente em 1989, Os nove pentes d’África (2009) de Cidinha Silva e O mistério da sala secreta (2021) de Lavínia Rocha. As três obras foram produzidas em momentos distintos e há a configuração de personagens femininas negras pré-adolescentes em uma jornada de autoconhecimento e reconstrução. A partir de Halbwachs (2006), Jelin (2002), Candau (2012), Debus (2018, Spivak (2010), as obras foram comparadas, analisando como em cada narrativa são tematizadas para jovens leitores questões como racismo, identidade e ancestralidade, por meio de sua relação com uma memória coletiva. Na obra de Guimarães, é pela memória que a protagonista ativa lembranças de dor e alegria que a fazem compreender a sua identidade negra. Por sua vez, na obra de Cidinha Silva, a ancestralidade de uma família é retomada e revivida pela simbólica imagem de pentes esculpidos do avô para seus netos. Já em O mistério da sala secreta , em um clima de aventura, temos a jornada de Júlia para salvar a escola Maria Quitéria de ser fechada, e nessa busca, ela precisa também mergulhar em memórias outras para entender a sua identidade. É possível concluir que a memória coletiva ocupa um importante papel estruturante nas três narrativas analisadas e juntas oferecem um importante panorama de representações identitárias para os jovens leitores.

O campo literário segundo Vencidos e degenerados (1915), de Nascimento Moraes

2024-03-08

Luiz Henrique Silva de Oliveira

Nosso propósito é analisar, a partir das visões de personagens e do narrador de Vencidos e degenerados , livro originalmente publicado em 1915 por Nascimento Moraes, a natureza das disputas contidas no campo literário maranhense. Tomaremos por base três premissas formuladas por Pierre Bourdieu: o acúmulo de capitais; seus trânsitos e valores no campo; e os embates entre os “estabelecidos” e os “recém-chegados”. Para isso, levaremos em conta posicionamentos da fortuna crítica sobre o autor e sua atuação num contexto marcadamente racista e, assim, também teremos como apoio teórico as reflexões de Cuti. No livro, de um lado estão os “vencidos e degenerados”, vale dizer os negros, pobres, dotados de baixos capitais de ordem simbólica, econômica e, para o grupo rival, cultural. Tal grupo, também chamado no livro de “os que trabalham por necessidade”, é dotado de menores capitais, numa estrutura social herdeira da escravidão. Do outro lado, há o grupo formado pelos que “trabalham por vaidade”. Conforme estabelece a narrativa de Moraes, é formado por brancos descendentes de famílias herdeiras e beneficiárias da colonização e do escravismo. Ocupam posições de destaque na sociedade e na hierarquia econômica das profissões. A reflexão do texto literário aqui analisado deixa um recado: a entrada e a permanência do autor negro no campo literário maranhense são assinaladas por percalços vários e não enfrentadas por escritores de outros pertencimentos étnicos.

“Alma”, de Itamar Vieira Junior: uma análise na perspectiva das neonarrativas de escravidão

2024-03-08

Shirley de Souza Gomes Carreira

O presente artigo tem como objetivo analisar o conto “Alma”, de Itamar Vieira Junior, publicado na coletânea Doramar ou a odisseia: histórias (Vieira Junior, 2021), na perspectiva das neonarrativas de escravidão (Rushdy, 1997), ou seja, de narrativas que se ambientam na época do sistema escravagista e se apropriam de alguns elementos típicos dos relatos de escravos dos séculos XVIII e XIX, como a enunciação em primeira pessoa, o relato das atrocidades do regime escravocrata e da fuga. As neonarrativas de escravidão surgiram em um contexto anglófono na década de 1960, entretanto, se difundiram nos países em que o sistema escravocrata foi implantado, e há várias obras que podem ser assim compreendidas na literatura brasileira contemporânea. O artigo reflete também sobre o modo como essas narrativas produzem novas formas de experiência estética, bem como um realismo afetivo (Schøllhammer, 2013) que é evocado além da representação. No conto de Vieira Junior, o efeito de realidade está estreitamente ligado à questão étnico-racial e à intervenção na realidade receptiva (Schøllhammer, 2012, p. 130).

Representação do Tambor de Mina pela literatura afro-brasileira de Bruno de Menezes

2024-03-08

Állan Sereja dos Santos, Felipe dos Santos Matias

Este estudo tem o objetivo de investigar o modo pelo qual o literato negro Bruno de Menezes representa a afrorreligião Tambor de Mina em sua poética. Para isso, analisa-se o poema “Toiá Verequête” – presente na obra literária Batuque (1931) –, que narra a incorporação do vodum Toiá Verequête na mãe de santo Ambrosina, em um terreiro. No que concerne aos aportes teórico-críticos, dialoga-se com os estudos de Eduardo de Assis Duarte (2010), Abdias do Nascimento (1978), Mundicarmo Maria Rocha Ferretti (1996), Anaíza Vergolino (2003), Taissa Tavernard de Luca (2010), Naiara Larissa Raiol Valcacio (2022), Aldrin Moura de Figueiredo (2001), Paulo Nunes (2002), Luiz Augusto Pinheiro Leal (2011) e Mariana Janaina dos Santos Alves (2021). Bruno de Menezes, ao colocar em seu poema uma mãe de santo e um vodum como personagens principais e a guma como espaço de um texto poético, contribui para a valorização da afrorreligião Tambor de Mina. O ponto de vista construído pelo poeta em seu poema não folcloriza ou erotiza os personagens negros. Pelo contrário, valoriza o protagonismo destes e de sua cultura ancestral.

A posse da palavra é a posse do corpo: relações entre poetry slam e empoderamento negro

2024-03-08

Karine Aragão dos Santos Freitas, Talita Rosetti Souza Mendes

Este artigo tem como objetivo analisar slam poetrys produzidos por Mel Duarte, por Gabrielly Nunes (Gabz) e por Cleyton Mendes, poetas contemporâneos participantes ativos de Rodas, de Encontros e de Festivais em que essa manifestação artística é, internacionalmente, fomentada em coparticipação com o público. Para elaboração do texto, parte-se do princípio de que novos espaços de fala são novos espaços de escuta e de que o poetry slam é, segundo a slammer e produtora cultural Mel Duarte (2019), um lugar poético-político e democrático, que tem como principal conceito a liberdade de expressão e o livre diálogo como uma ferramenta para construção de novos horizontes. Essa possibilidade de diálogo, associada à reconfiguração dos lugares cristalizados de fala (colonizador) e de escuta (colonizado), atravessa as discussões acerca do empoderamento de grupos subalternizados, em seus processos de autoafirmação, de autovalorização, de autorreconhecimento e de extravasamento de demandas sociais sufocadas. A partir das análises, ressalta-se que o poetry slam marca a insurreição de um corpo – individual e coletivo – que busca a palavra como instrumento de luta e de empoderamento, sobretudo, de grupos negros e periféricos.

Como é ser negro no brasil?: Uma análise do conto “Conluio das perdas”, de Luiz Silva Cuti, e da música “Negro drama”, dos Racionais MC’s

2024-03-08

Alba Valéria Niza Silva, Alysson Jorge Alves de Andrade

O presente artigo visa pesquisar como é ser negro no Brasil, a partir de uma análise comparativa do conto “Conluio das Perdas”, de Luiz Silva Cuti, e da música “Negro Drama”, do Racionais MC’s. A metodologia utilizada foi a de cunho bibliográfico crítico-teórico, dedutivo e analítico, além dos levantamentos de pesquisas com o intuito de mostrar como é ser negro no Brasil. O referencial teórico ancora-se no pressuposto que há, no Brasil, um racismo estrutural, tendo o aporte teórico de: Antonio Candido (2006), Edward Telles (2012), Silvio Luiz de Almeida (2019), Grada Kilomba (2019) e outros autores que pesquisam temáticas parecidas. A pesquisa foi realizada em quatro partes: Primeiramente, observamos que a representação da cidade de São Paulo no conto e na música representa uma cidade cheia de desafios para a vida de uma pessoa negra. Posteriormente, foi demonstrado que ser negro e a sua relação com a polícia aponta que há, no Brasil, um racismo estrutural que está presente nessa instituição. Em seguida, constatamos que há, de fato, uma pressão para que as pessoas negras alcancem uma ascensão social e econômica, mesmo com as enormes dificuldades que enfrentam diariamente. Por fim, defendemos que, em ambas as obras, ocorre um processo de autoafirmação e do orgulho de ser negro, visto que, ainda que em meio às dificuldades encontradas, ocasionadas pelo racismo estrutural, ser negro é resistir e ter força para combater o problema que assola a comunidade negra diariamente.

A vez e a voz decolonial nas escrevivências evaristianas: o (re)tecer da memória ancestral em Poemas da recordação e outros movimentos

2024-03-08

Arissandra Andreia dos Santos, Josenildo Campos Brussio, Silvana Maria Pantoja dos Santos

O projeto ficcional da escritora Conceição Evaristo, na perspectiva da literatura afro-brasileira, é perpassado pelo tema da decolonialidade ao (re)tecer a memória ancestral sob o ponto de vista do protagonismo de autoria da mulher negra e periférica. Diante disso, a poética evaristiana, bem como a sua obra, em prosa e/ou poesia, faz um resgate das vozes silenciadas que sofreram a tentativa de apagamento pelos mecanismos hegemônicos eurocêntricos colonizadores do poder (Quijano, 2009). Nesse sentido, propomos nesta investigação analisar, por meio das escrevivências, as imagens poéticas presentes em dois poemas da coletânea Poemas da recordação e outros movimentos (2021), a partir do olhar decolonial e memorialístico da escritora. A leitura será analítico-interpretativa, com ênfase na perspectiva da fenomenologia das imagens poéticas de Gaston Bachelard, no percurso antropológico do imaginário preconizado por Gilbert Durand (2012), nas potencialidades do inconsciente coletivo de Carl G. Jung (2000), na memória coletiva de Maurice Halbwachs (2006) e Pollak (1990) e na decolonialidade proposta por Mignolo (2017), Quijano (2009) e Lélia Gonzalez (1984). A poética Evaristiana é perpassada tanto por uma construção simbólica de imagens poéticas vistas como uma desobediência epistêmica (Mignolo, 2017), quanto pela memória coletiva e individual (Halbwachs, 2006) que (re)tece as vivências de um eu-feminino decolonial ao remontar um passado diaspórico ancestral, a partir da percepção do presente sobre as agruras que ficaram como marcas do passado.

Semiótica de Úrsula, o aberrante

2024-03-08

Luciano Barbosa Justino

O objetivo desta leitura de Úrsula , obra de Maria Firmina dos Reis publicado originalmente em 1859, primeiro romance a semiotizar o navio negreiro e outras tantas e relevantes primeiridades, é explorar, com base no episódio da Preta Susana, um capítulo estranho e destoante, como ele tensiona o núcleo dominante da trama, no qual, apesar do que tem dito a fortuna crítica da obra, faltam o trabalho escravo e uma produção de subjetividade eminentemente negra. É a irrupção da máquina capitalista da escravidão no capítulo aberrante “A preta Susana”, que a ideologia da forma teima em tentar ocultar, o foco deste artigo. Entende-se que o mérito e a atualidade inescapável do romance devem-se à tensão instaurada pela semiotização destes dois mundos, da ideologia da forma romântica escravista, recorrente em todo o romance, posta em face da irrupção de um lugar de fala contundentemente negro que Susana dá a ver no capítulo IX, analisados à luz dos conceitos de objeto imediato e de objeto dinâmico da Semiótica.

Uma prosa com Arlinda: ancestralidade, oralitura e intersubjetividade narrativa em Fátima Trinchão

2024-03-08

Leandro Souza Borges Silva

O objetivo deste artigo é estabelecer breves apontamentos sobre as categorias ancestralidade, oralitura e intersubjetividade narrativa que estão presentes no conto “Arlinda”, de Fátima Trinchão. Escritora negra baiana, Fátima Trinchão se debruça numa escrita permeada por memórias coletivas afrocentradas que mobilizam saberes afetivo-comunitários de resistência e luta. Os aportes bibliográficos utilizados, alocados numa epistemologia negrorreferenciada, se fundamentam, dentre outros, em Ana Rita Santiago (2012), Leda Maria Martins (2001; 2002) e José Henrique de Freitas Santos (2016; 2018). Nessa abordagem, nota-se que o conto “Arlinda” celebra princípios ancestrais afrocentrados de partilha e resistência, demonstrando uma proficiente escrita que, dinamizando as literaturas negras, esgarçam horizontes de produção literária que autenticam existências negras insurgentes.